Procrastinação (não)
- florarevista
- 20 de jan. de 2023
- 2 min de leitura
Crônica por João Eduardo

É terça-feira, Amélia já tinha faltado sua faculdade no dia anterior e agora passou-se mais de uma hora do previsto que deveria estar lá no dia de hoje, ela havia tomado banho mas todos os passos seguintes que levariam alguém a sair de casa... pareciam inalcançáveis naquele momento.
Sua barriga parecia distendida, havia uma náusea inevitável na sua respiração, que ia de pouco em pouco tropeçando, uma baforada na outra. Quanto ao coração, era uma mescla estranha, ele batia, afinal estava viva a moça, mas o peso que sentia no peito era tão grande que parecia um esforço de sua alma retirar aquele bloco de carne da cama. Seu gato miava por algum motivo à se entender, livros que queria começar jogados ao seu redor, DVDs (cretáceo) riscados pela cama, começou a pensar como era um deles, em formato de disco, uma vez elogiada e necessária no passado, mas agora esquecida, arranhada inconsequentemente e inércia nos lençóis.
A necessidade de se comparar a objetos sempre chamou a atenção de Amélia, a objetificação do seu ser e sua felicidade, o afastamento da insustentável liberdade de ser humano, e naquele momento, sozinha em um quarto com fumê preto nas janelas, percebeu que não importa quão forte chorasse, ela estava sozinha.
Terça-feira (você se lembra que dia foi hoje?) é o dia de terapia de Amélia, mas dessa vez ela vai a outra consulta, tratar outro problema, suas mãos trementes, só de pensar em falar de si para outro ser humano que ainda nem conhece a face, mas já teve que responder um questionário sobre si que a clínica pediu para que enviasse, os dias sem terapia são os mais difíceis (?), Amélia então diz pra si
"Chega, eu quero ser normal, ter amigos e o que mais, não sentir e me afastar das dores que como humana sou obrigada a conhecer desde a infância, chega, eu preciso ser rica" e começar a sorrir como uma idiota, a dor não parou, mas o mundo também não, naquele momento Amélia notou, que sorriu com sua própria distração,
A rima do final do trecho anterior, fez ela escrever uma poesia,
Se sorriu ou se chorou...
Notou que a tristeza também precisa dos seus dias




Amélia acolheu a sua dor e seguiu, nada como um dia após o outro. Parabéns ao cronista, excelente texto.